No programa Profissão Repórter, a repórter mostrou que foi hostilizada (xingamentos, empurrões na câmera e impedimento do exercício) quando tentou cobrir o discurso de Lula na sede do PT, no dia em que ele foi levado a depor.
Situação péssima. Terrível o momento que a colega, que chorou diante da câmera, deve ter vivido. No programa, o comportamento foi criticado por Caco Barcellos, que trabalha como um guru da reportagem. Alertou que é uma irresponsabilidade incitar violência em grandes grupos.
Essas cenas me fizeram lembrar algo que venho notando e refletindo há um bom tempo no exercício do meu jornalismo: a reportagem da tv globo não consegue mais circular por muitos cantos do Brasil.
Na ocupação dos sem-teto, não consegue estar. Faz do outro lado da rua. Entrevistando os vizinhos. Chama de invasão.
Na greve dos garis no carnaval, não consegue estar. Põe o prefeito, patrocinador do carnaval na emissora, para sentar no RJ TV. Mal ouve o gari.
Na passeata onde estão reunidos os maiores movimentos sociais do país, não consegue estar. Faz do helicóptero, última linha em Unidade Móvel de Jornalismo. Uma UMJ que não entrevista ninguém. Se faz no chão, está sem canopla. Coloca produtores e repórteres menos conhecidos para um trabalho heroico. (Aliás, era importante saber se ganham mais por isso).
No enterro do menino morto pela polícia na favela do Cantagalo, não consegue estar. Deu a versão da polícia rápido demais. Indiretamente, chamou de bandido. (Nesse dia, vi a repórter da emissora recebendo ameaças com pedras portuguesas do cemitério).
Em outras palavras, hoje, 2016, a Globo tem dificuldade de tratar de alguns dos mais relevantes temas para o país: déficit habitacional, o movimento por reforma agrária, os movimentos sociais, violência policial... Isso sem contar no assunto que é a maior omissão da história da "grande mídia" brasileira: a "grande mídia" brasileira.
Tudo isso para dizer que ontem orei para que, no Profissão Repórter, do admirável Caco Barcellos, a Globo expusesse a situação sem escapismos. Algo, minimamente, maduro. E, para mim, sem violência mesmo, esse debate começa com uma pergunta básica: por que a Globo é hostilizada? Ou melhor - em pergunta direta para algum entrevistado: por que você, que está hostilizando a Globo, está hostilizando a Globo?
Eram essas questões que estavam postas. Caco Barcellos e sua equipe de repórteres deveriam parar para refletir naquele momento. Na reportagem, em vídeo. Não em reuniões fechadas. A reportagem deve trazer os seus debates internos.
Não foi o que aconteceu. A Globo fez, mais uma vez, um jogo de personagens recortados do que deveria ser um debate sério e fundamental para o jornalismo brasileiro e para todos os repórteres da empresa. Criou duas heroínas na reportagem: militantes do PT que salvaram uma repórter da Globo em perigo. Uma delas, um amor, uma alegre senhora sorridente que agora (olha que relevante para o debate!) está indo para Cuba ver Obama e os Rolling Stones.
É saída que chamo de "contadores de história". Há um clichê entre os jornalistas mais líricos, inclusive dentro da Globo, que diz que "jornalismo é contar histórias". Bueno, tem sua verdade. Mas há casos que o "contar histórias" é apenas álibi para fraudar o cerne da reportagem. Uma treta grande vira um caso isolado e o debate ampliado não se completa com ninguém.
Pronto. Fim do programa. Os comerciais. E agora o Willian Waack.
A Globo precisa se deixar questionar. Quem questiona e pressiona o país desde que nasceu deve ter a grandeza de ser questionado perante ele.

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