Quarenta e sete anos após o atentado, os engenheiros Ricardo Zarattini e Edinaldo Miranda são
inocentados
do caso que ficou marcado na história pernambucana
Publicado em 11/12/2013, às 06h00

Clemilson Campos/JC Imagem
Em março de 1970, uma documentação tratada por “confidencial” do Ministério da Aeronáutica já livrava o ex-deputado federal Ricardo Zarattini e o engenheiro Edinaldo Miranda da acusação de serem os autores do atentado ao Aeroporto dos Guararapes, emblemático episódio que chocou o Recife nos primeiros anos da ditadura militar, em 1966. Somente 43 anos depois é que esses papéis puderam vir a público, através do trabalho da Comissão Estadual da Verdade Dom Hélder Câmara. Ontem, justo no dia em que se comemorava o lançamento da Declaração Universal dos Direitos Humanos, dois homens – que passaram pela dor da tortura e carregaram a acusação injusta por anos – puderam ser oficialmente inocentados. Em solenidade, na sede provisória do governo de Pernambuco, o governador Eduardo Campos (PSB) entregou a documentação inédita a Zarattini, que veio de São Paulo, e à família de Edinaldo, falecido em 1997.
“Nós tivemos que enfrentar a tortura do Dops para confessar um crime que não comentemos”, desabafou Zarattini. “Minha vida foi muito marcada por essa história. Era ele que era para estar aqui, mas infelizmente não pode mais”, contou emocionada a filha de Edinaldo, Emília Miranda. Sem um tribunal que apurasse os crimes cometidos durante a ditadura, os dois militantes se empenharam pessoalmente para provar a inocência.
A bomba no saguão do aeroporto matou duas pessoas, o jornalista Edson Régis de Carvalho e o vice-almirante reformado Nelson Gomes Fernandes, e deixou 14 feridos. Na versão divulgada pelo regime militar, tinha o objetivo de atingir o marechal Artur Costa e Silva, candidato a presidente da República, que era esperado por dezenas de pessoas no aeroporto. De última hora, porém, em vez de chegar de avião, desceu na Paraíba e veio de carro.
O documento que surge agora aponta que, após investigações iniciadas no Rio e complementadas no Recife, foi “levantado o nome do autor do atentado ao aeroporto” de julho de 1966. Trata-se de Raimundo Gonçalves de Figueiredo, militante da Ala Vermelha do PCdoB. “Já está perfeitamente caracterizado que tratou-se de uma ação isolada praticada por Raimundo, à revelia do Comando Nacional da AP. Por este motivo, inclusive, Raimundo foi expulso do Partido ainda em 1966”, conclui o texto.
O presidente da Comissão da Verdade, Fernando Coelho, ressaltou que o caso ainda não está encerrado. “Continuaremos a aprofundar o que ainda tem de polêmico”. A versão que ganha mais força, pois soma documento e depoimentos, é a de que foi uma ação isolada da esquerda. Mas também há fatos, advogados em livro do historiador Paulo Cavalcanti, já falecido, que indicam que o atentado pode ter sido planejado por setores da ditadura.
Nenhum comentário:
Postar um comentário