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sábado, 9 de novembro de 2013

DVD Todas as vozes de Filipe Catto

No DVD Entre olhos, cabelos e furacão, o jovem gaúcho confirma a androginia na música brasileira

Publicado em 09/11/2013, às 06h00

    A voz de Filipe Catto é um condomínio. Nela moram – ou se hospedam confortavelmente – o metal da garganta de Ney Matogrosso, a precisão de Elis Regina, a densidade de Dolores Duran e Lupicínio Rodrigues. Mais a ambiguidade de David Bowie e a passionalidade de Maysa ou Janis Joplin. Aos 25 anos, o gaúcho de timbre alto, contratenor frequentemente comparado ao antigo líder do Secos & Molhados, é hoje o principal nome de uma certa androginia musical que está de volta ao País, a dualidade que foi símbolo da virada dos 70 para os 80. “É natural que se façam comparações, para entender o que surge de novo”, diz Filipe, que, não poucas vezes, para responder à comparação, disse ter em comum com Ney apenas o fato de ter “voz de mulher”. “Ele tem um tipo de drama que uso de vez em quando...”, disse Ney, em declaração publicada no site do cantor.
    Sem previsão ainda de vir ao Recife, Filipe Catto está em turnê pelo Brasil para divulgar o lançamento de seu DVD Entre cabelos, olhos e furacões ao vivo (Universal Music). Em composições próprias, letras narrativas protagonizadas por personagens, ou recriando obras alheias, Catto confirma, no DVD ao vivo, que sua vocação é o palco. Na atual música brasileira, poucos (além do veterano Ney), desfilam desenvoltura tão performática.
    Gravar ao vivo, para ele, é quase como estar no palco. Quase: “A gravação ao vivo propõe outros desafios. É como uma fotografia daquele instante, daquele dia... Então, existe uma verdade que é maravilhosa e também é cruel, porque ela propõe esse espelho para a gente se enxergar de forma nua e crua. Eu gosto desse desafio, e acho que é muito importante que eu passe por isso agora”, diz, de São Paulo, onde vive.
    Na gravação ele está, como de costume, arrebatador em temas próprios como Adoração. E, uma de suas características, confere e revela beleza e elegância além do original na recriação de composições aparentemente datadas, como Vinte e poucos anos, de Fábio Júnior. No DVD, a interpretação é de arrancar uma lágrima do olho direito.
    “São músicas que falam de onde eu vim, da minha mãe ouvindo rádio, das coisas que eu cantarolava quando era criança e que sempre me emocionaram. Acho que são clássicos, músicas inesquecíveis e que não poderiam ficar de fora de um momento em que eu estou contando minha história através de um espetáculo”, diz ele.
    O título do DVD é extraído de um verso de Ave de prata, de Zé Ramalho, um dos pontos altos do repertório. Mas o medley que abre com Eu menti pra você, de Karina Buhr e segue com Mente, Meu mundo caiu,Volta por cima e Galope soa burocrático. Ele, contudo, explora e amplifica cada camada emocional de Eu te Amo, versão de Roberto e Erasmo para And I love her, dos Beatles.
    Que vozes, afinal, Filipe Catto consegue ouvir em sua voz? “A minha!”, diz, entre risos. “A minha voz é minha maior característica, e, claro, reflete diversas vozes que me construíram. A gente é feito de tudo isso, do cinema, da música, das artes, dos cantores, mas também de outras coisas. Eu sou um intérprete, acima de tudo, mais do que qualquer coisa e isso vem dessa tradição, porque eu vivi ouvindo essas vozes... Elis, K.D. Lang, Milton, Caetano, Chico, Bethânia, PJ Harvey, Nirvana, Cássia Eller, Pixies... Tá tudo aqui dentro, e isso tudo forma o que eu sou e o que minha voz representa”, diz o leitor atento e entusiasmado da outrora maldita Cassandra Rios.

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