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sábado, 8 de março de 2014

A vida passa pelas pontes

09/03/2014 00:05 - Rodrigo Passos

André Nery
“A cidade é passada pelo rio, como uma rua”. A frase, do pernambucano João Cabral de Melo Neto, mostra o fascínio que o rio Capibaribe provocava no poeta e como esse imenso território aquático está incorporado ao imaginário local. Cortando 240 quilômetros de terras pernambucanas, e desemborcando majestosamente no Recife, o rio está prestes a deixar de ser apenas paisagem de contemplação, para ser, finalmente, inserido na mobilidade da Capital, pelo projeto Rios da Gente, que deverá estar pronto no final de 2014. No entanto, são suas pontes que dão identidade ao Recife e que podem ser consideradas a marca do Centro. O conjunto arquitêtonico e afetivo, formado pelas históricas pontes Giratória, Maurício de Nassau, Buarque de Macedo, Limoeiro, Princesa Isabel, Duarte Coelho, da Boa Vista e Velha ligam as ilhas do Bairro do Recife e de Santo Antônio ao restante da Cidade. A vida passa por cima e por baixo de todas elas, que guardam histórias de hoje e de ontem.

    Folha de Pernambuco passeou ao longo do rio por um dia, momento em que a calmaria do Capibaribe contrastou com o caos da superfície. Foram cerca de 15 km de navegação, revelando uma nova perspectiva do Recife e, principalmente, do que acontece no entorno e embaixo de suas pontes. A saída aconteceu na Bacia do Pina, no bairro do Cabanga, ponto de atracação de diversas embarcações, seguindo até o bairro de Santana. O passeio por essas artérias aquáticas foi feito em uma baiteira, pequeno barco utilizado para a prática da pesca. Nela, a reportagem teve uma visão diferenciada da metrópole, vista do prisma do Capibaribe. O cenário percorrido surpreendeu e mostrou que o rio, mais do que se imagina, pulsa vivo.

    Ponte do LimoeiroLiga a avenida Norte ao Cais do Apolo. Construída em 1881, serviu ao trem que saía da  estação do Brum. Hoje é feita de concreto armado. Quem trafega por cima não sabe quanta vida existe embaixo. Atividades relacionadas à pesca são realizadas em uma espécie de estaleiro. O local, inclusive, já foi moradia de muita gente, como Francisco de Oliveira,  que viveu em um dos quartos de madeira “incrustrados” na ponte e que,  nos tempos atuais, servem de depósitos para os pescadores. “Umas 25 pessoas moravam aqui. Depois, todos foram cadastrados e ganharam uma casa”, disse. Ao lado, no manguezal, a prostituição e o consumo de drogas incomoda os trabalhadores. “Eles lá e nós aqui”, diz Antônio Silva. Nas vigas de madeira,  números de telefones anotados, uma “inusitada”  lista de contatos dos diversos profissionais. Um jeito de viver original.

    Ponte Princesa IsabelInaugurada em 1863, faz a conexão entre a rua da Aurora, na Boa Vista, com a rua do Sol, em Santo Antônio. Após um século, a estrutura de ferro foi substituída por concreto. Ao seu lado, marisqueiros dão vida ao mangue que circula o Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo do Estado. A atividade é ditada pelo horário da maré. “Nós viemos de baiteira a motor todos os dias”, contou a catadora de crustáceo, Ana Lúcia Gomes, 46, que há dez anos retira da lama o sustento da sua família. O local pode variar, de acordo com o que a natureza tem a ofertar. Em dias bons, é possível colher entre 10 a 12 quilos de marisco ou sururu, vendidos a R$ 7 o quilo. Alí o casal Ana e Mizael Fernandes divide as tarefas. Para ele, a parte mais pesada: raspar a lama com uma pá, colocar dentro de um cesto e chacoalhar, para que os cascalhos caiam. Já no barco, a mulher, com as mãos, separa o restante, atirando de volta ao mangue o que não serve. E, da lama, a família se organiza.
    Perfil das PontesImponentes. Este é o adjetivo que melhor descreve a beleza das pontes do Recife. Mas o que há por debaixo dessas estruturas?  Um moto contínuo das águas fluviais, que nunca param, enquanto na superfície, o engarrafamento toma conta da Cidade. Em algumas,  se contempla intervenções artísticas. Em todas, a história do Recife se revela. A Duarte Coelho atendia o serviço ferroviário, inaugurado em 1868, que seguia para a Caxangá. Em 1943 foi reconstruída em concreto. Já a ponte da Boa Vista foi erguida em 1644, em sete semanas, inicialmente de madeira. Somente em 1876 foi edificada com as características atuais. Ela foi adquirida na Inglaterra pelo Governador da Província Henrique de Lucena, que viria a se tornar o Barão de Lucena. A Maurício de Nassau é considerada a primeira ponte do Brasil, e foi construída com as características próximas da atual, em 1644. A sua última reforma foi em 1993. Ao lado, a Buarque de Macedo é a mais extensa do Centro, com 283.3 metros. Foi concluída em 1890. Já a 12 de Setembro, conhecida como Giratória, originalmente móvel, foi inaugurada em 1923. Ela une o Cais da Alfândega e, por isso, barcos passavam por lá. Foi substituída por uma estrutura fixa em 1971.
    Ponte 06 de Março (Ponte Velha)Liga o bairro de São José ao Cais José Mariano, na Boa Vista. Foi construída na época dos holandeses. Em 1921 foi reconstruída. Bela, também espelha a miséria, pois no seu entorno estão dezenas de palafitas, e centenas de pessoas em condições subumanas. Nesse ponto, o cenário muda. A magia que o “navegante” avistava da rua da Aurora, em um passeio quase nostálgico, choca-se com a realidade social, que é jogada na cara de quem  tem a coragem de seguir rio adentro. De acordo com o secretário de Habitação do Recife, Eduardo Granja, até 30 de maio, 384 famílias serão transferidas para dois conjuntos habitacionais. Até lá, as estruturas das mais variadas formas, incluindo um surpreendente barraco com primeiro andar, continuarão ao alcance do olhar. O mais impressionante é o contraste com os prédios luxuosos que margeiam a comunidade. Gerlane dos Santos, que vive com seus dois filhos na “favela aquática” anima-se com a troca de endereço. A possibilidade da mudança traz esperança para quem não tem nada a esperar.
    Viaduto José BonifácioAlgumas pontes e viadutos estão servindo de “escritório”  para as obras do programa Rios da Gente. Casos dos viadutos Joaquim Cardozo, nos Coelhos, e José Bonifácio, na Torre. “Eles dão apoio aos trabalhadores e para guardar os materiais. De acordo com o andamento da obra, vamos instalando esses pontos de apoio”, afirmou o apontador Alberto Cordeiro, que trabalha no local. Inusitado foi o termo escolhido por ele para descrever a experiência de trabalhar debaixo de uma ponte, onde pessoas e carros passam sem perceber o que há sob a estrutura. “Para mim, foi gratificante porque nunca tinha visto a Cidade da ótica do rio”, relatou. Há sete meses na atividade, Alberto é mais uma vítima do encantamento do Capibaribe.
    SantanaA Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) é responsável pela conservação de todas as estruturas. A cada dois anos são feitos serviços de recuperação dos guarda-corpos das pontes e suas pinturas. No início da gestão atual foram realizadas vistorias nas pontes da Cidade e verificou-se que as estruturas não necessitavam de reformas. Quem passa por baixo percebe que todas estão em bom estado de conservação. Projetos de engenharia estão sendo programados para garantir um reforço estrutural em algumas pontes. Porém, é comum ter que desligar o motor para retirar sacos plásticos que teimam em enganchar na hélice dos barcos. Mas não são apenas sacos. Latas de metal, garrafas pets, capacetes, sofás e televisões navegem pelo Capibaribe. O odor também incomoda, principalmente, na avenida Beira-Rio, na Torre. O trecho de travessia de pedestres que liga o bairro do Cordeiro ao Parque de Santana é tomado pela vegetação, o que dificulta a navegação. A limpeza do rio não é de responsabilidade da PCR, na verdade, nenhuma autoridade assume oficialmente a tarefa. Mas a Emlurb realiza ações nos manguezais que margeiam a Rua da Aurora.

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