Publicado em 13/01/2013, José Teles
Em 21 de fevereiro de 1920, estreou em Paris o balé Boeuf sur le toit (Boi sobre o telhado), "com música de Darius Milhaud, argumento de Jean Cocteau, direção de Vladimir Golschmann, cenário de Raoul Dufy e participação dos irmãos Fratellini, os famosos palhaços do Circo Medrano". Le bouef sur le toit era a peça principal do espetáculo concebido por Jean Cocteau. Além da música de Milhaud, o programa incluía peças dos músicos de vanguarda, Erik Satie, Georges Auric e Francis Poulenc". Le bouef sur le toit fez tanto sucesso em Paris que reflexos de sua popularidade perduram até hoje no meio musical. A expressão inglesa "jam session", para designar uma sessão musical improvisada, os franceses dizem "faire le boeuf" (fazer o boi), ou "taper le boeuf" (pegar o boi).
Atribui-se a origem da expressão ao restaurante Le Boeuf sur le Toit, nome tomado emprestado ao balé. Ali os pianistas Jean Wiéner e Clément Doucet iniciaram as primeiras jam sessions de jazz em Paris, nos anos 20. Le boeuf sur le toit não teria existido se Darius Milhaud não tivesse vindo para o Rio de Janeiro, em 1917, como secretário do ministro plenipotenciário da França no Brasil, o poeta e diplomata Paul Claudel. Aos 25 anos, Milhaud não era ainda um dos mais importante compositores do modernismo, integrante do grupo dos seis, que se formaria em Paris três anos mais tarde. Porém a influência sobre sua obra foi determinante.
A curta passagem de Darius Milhaud pelo Brasil é uma história fascinante, que já recebeu vários ensaios, mas somente agora ganha um livro inteiro, com ensaios, análises, e textos do próprio Milhaud e Paul Claudel: O boi no telhado - Darius Milhaud e a música brasileira no modernismo francês, organizado por Manoel Aranha Corrêa do Lago, e publicado pelo Instituto Moreira Salles (304 páginas, R$ 60). Corrêa do Lago já se ocupou do assunto antes, no livro O Círculo Veloso-Guerra e Darius Milhaud no Brasil, que traz à tona importante e esquecido personagens da música erudita brasileira, como a pianista Nininha Veloso-Guerra, amiga de Darius Milhaud, que participou do modernismo musical francês e tocou em primeira mão composições de Milhaud.
Em O boi no telhado, Corrêa do Lago reuniu seis ensaios que atacam a obra do compositor por vários ângulos, e aborda mais uma vez a trajetória da pianista Nininha Velloso-Guerra, um personagem que merecia uma biografia tamanha sua importância na música moderna erudita brasileira: "O envolvimento de Nininha Velloso-Guerra com a música moderna francesa precede de alguns anos a vinda de Milhaud ao Brasil e é indissociável de seu interesse pela composição. Ela já havia sido responsável por diversas primeiras audições brasileira de obras de Debussy (....)
Na série de concertos de música moderna francesa e brasileira, organizada por Milhaud em 1917 e 1918, Nininha seria sua principal colaboradora, apresentando-se como solistas, seja em obras de câmara, escutando composições de Debussy, Ravel, Satie, Koechlin e Milhaud". Operou-se a troca de informações entre Darius Milhaud e compositores brasileiro como Alberto Nepomuceno, Oswaldo Guerra e Luciano Gallet, entre outros, mas a importância da passagem do compositor francês pelo País foi seu interesse pela música popular, a que ouvia nas ruas, nas antessalas de cinema. Sua chegada ao Brasil coincidiu com o lançamento de Pelo telefone (Donga/Mauro de Almeida). "O primeiro contato de Milhaud com o Rio, em fevereiro de 1917, apresenta-se com duas coincidências notáveis: a primeira é a própria data de chegada, poucas semanas antes do início do Carnaval, permitindo a Milhaud observar seus laboriosos preparativos (...)
A segunda coincidência é esse contato ter se dado precisamente no Carnaval de 1917, marco divisor a história da MPB, pela entrada do samba na música popular com o sucesso da gravação comercial de Pelo telefone, do qual deixou um enviuvado relato: ‘O público canta e dança com paixão durante seis semanas, dente todas as canções há sempre uma preferida e que, em consequência se torna a canção do Carnaval... Pelo telefone, a canção do Carnaval de 1917, explodiu por todos os cantos e nos perseguiu durante todo o inverno’". Pelo visto Milhaud não foi perseguido apenas pelo samba-maxixe Pelo telefone. Virou fã de Ernesto Nazareth e Marcelo Tupinambá e pela música comercial divulgada pelas casas editoras do Rio e São Paulo, dos músicos que ele denominava "compositores de tangos, maxixes, sambas e cateretês".
Esta música que de que ele se impregnou e virou inspiração e tempero da sua suíte sinfônica Proteu (1919), Saudades do Brasil e a Balada para piano e orquestra (1920) e, sobretudo, em L’Homme et son désir, Souvenir de Rio e, obviamente, Le boeuf sur le toit: "De um total de aproximadamente trinta citações e de uma quinzena de autores destacam-se principalmente Ernesto Nazareth e Marcelo Tupinambá: entretanto o universo representado é mais amplo, incluindo compositores famosos como Chiquinha Gonzaga, Catulo da Paixão Cearense, Eduardo Souto, Oswaldo Cardoso de Menezes, Soriano Robert e Zé Boiadero (pseudônimo de José Monteiro), autor do tango O boi no telhado", escreve Corrêa do lago, organizador do livro. O boi no telhado foi um dos maiores sucessos do Carnaval carioca de 1918.
A utilização de Milhaud de composições de brasileiros foi analisada como "uma complexa técnica de colagem, na qual materiais tomados de empréstimo, à maneira dos ready made de Marcel Duchamp e dos objetos truvés dos dadaístas, são combinados de diversas formas utilizando técnicas análogas às que vinham então sendo praticadas nas artes plásticas, e daquelas, como a montagem então desenvolvidas contemporaneamente pela jovem arte cinematográfica... Esta técnica de colagem começa a ser elaborada no Rio durante a composição do balé L’homme et son désir, e se cristalizaria plenamente no balé Le bouef sur le toit, escrito em Paris em 1919, construído como um complexo tecido contendo mais de vinte citações de música popular brasileira impressa".
Nenhum comentário:
Postar um comentário